qual foi o primeiro contato com publicações de artista?

foi na época do “boom” de fotolivros que ocorreu lá por 2010/2011, e que foi bem forte em barcelona, cidade onde eu morava na época. eu estava muito ligada à fotografia, trabalhava em um laboratório de revelação e impressão fineart, tinha vários clientes artistas que estavam começando a trabalhar nos formatos livro ou revista, e nas livrarias de arte você começava a ter esse material disponível, além também de projetos de divulgação de bons fotolivros, como o have a nice book, que não sei se segue ativo, mas que consistia em vídeos de fotolivros sendo folheados. eu também estava estudando fotografia naquele momento e pesquisando minha própria linguagem autoral, então foi bem natural compreender esses projetos editoriais, além de começar a pensar projetos nesse sentido. mais ou menos na mesma época, descobri alguns ateliês de livros artesanais e passei a me interessar pelas encadernações manuais, aprendi a costurar e comecei a me informar sobre técnicas de impressão editorial, outra coisa que de repente ficou acessível na época: de repente você tinha uma gráfica num espaço incrível em um ex bairro industrial da cidade (em um processo de gentrificação, nem preciso dizer), que te prometia facilitar todo o processo de impressão sob demanda para você lançar seu próprio livro independente (chamava-se the private space). era caro, óbvio, e eu jamais usei aqueles serviços, mas serviu para que eu pudesse pensar, pela primeira vez, fora da caixa da impressão puramente fotográfica (com químicos ou tintas pigmentadas sobre papéis caros) e sem precisar ter grande conhecimentos gráficos para a impressão dos meus trabalhos. a primeira feira que visitei foi também nessa época, a arts libris, no arts santa monica, também em barcelona, que na época tinha um caráter muito focado em obras únicas, livros-objeto e gravuras (talvez hoje esteja diferente), mas que nessa época me interessava muito, pois representava um universo delicado ao qual eu não estava acostumada como fotógrafa.

 

quando e como começou a publicar?

em janeiro de 2015, já de volta ao brasil, lancei minha primeira publicação, chamada “leve”, para uma exposição coletiva organizada por uns amigos em porto alegre/rs. a publicação era impressa em jato de tinta sobre papel vergê, costurada à mão, com título e colofão datilografados e capa em papel jornal. um objeto bem "fofo", que também trazia uma série fotográfica tirada da gaveta, toda analógica, imagens que se encadeavam entre si pelo tom afetuoso que continham, um caminho pela "beleza". foi minha única publicação desse tipo, depois fiz coisas bem diferentes, mas ela foi importante porque deu um trabalho do inferno, mas me deu confiança de que podia publicar algo por mim mesma, nos meus moldes: eu nem sabia fazer um boneco e não tinha impressora em casa, então o processo de impressão de cada lote consistia em passar pelo menos 2h numa gráfica-xerox que ficava perto da minha casa, num espaço minúsculo, enviando arquivo por arquivo e virando as páginas para imprimir no verso e convencendo o dono do estabelecimento a não desistir de mim cada vez que o papel travava na impressora. era muito importante que desse certo, pois nessa época já estava difícil encontrar quem imprimisse jato de tinta e ainda mais pelo preço barato que ele me cobrava. é claro que um dia acabou minha paciência e a dele, a previsão era fazer 50 exemplares, devo ter chegado a 30 apenas, mas já estava ótimo. o leve, que eu chamei de fotozine, dividia espaço com os cadernos meio obras-únicas que eu estava produzindo no ano anterior, sob o nome de vendo luzes, e que já vinha expondo em algumas feiras mais genéricas, dessas que têm desde brechó a artes gráficas. minha mesa nas feiras era, então, bem artesanalzinha, com muito aproveitamento de livros antigos e papelarias várias. ainda nesse início de 2015, eu e amanda copstein, fundadora da feira papelera, convivíamos bastante e fazíamos projetos juntas, então surgiu a ideia de criação de uma feira, a papelera, no caso. a amada levou o projeto adiante e eu colaborei com ela, em maior ou menor escala, nos primeiros tempos, em um formato de feira pequenina, que hoje está bem maior, mas que era focada em artes gráficas. esse foco era importante, pois permitia que nos relacionássemos melhor com o público que realmente gostava das coisas que estávamos fazendo e isso nos incentivava a seguir produzindo. a papelera também serviu como banca coletiva nas nossas primeira e segunda participações na parada gráfica (em 2015 e 2016, se não me engano), era uma união bem frutífera para a gente, já que tínhamos poucas publicações cada uma, mas vários materiais gráficos de outro tipo para expor, inclusive de outros artistas. em 2016, já com mais publicações e querendo afunilar ainda mais esse público, fundei sozinha a feira folhagem, em porto alegre/rs, que era totalmente dirigida a publicadores. a folhagem nunca deixou de ser uma feira pequena (tivemos 5 edições), por falta de braço mesmo, mas é um projeto que mesmo lento, segue vivo. dentro dele, foi organizada uma exposição (e l i p s e s, 2017), dois encontros de publicadores, várias oficinas e foi constituída uma banca viajante coletiva, que até hoje circula comigo e com a fernanda medeiros (da cactus edições, a fê entrou no projeto em 2018) por feiras pelo brasil e arredores.

 

fale sobre a meteoro edições.

encaro a metero como fruto de uma maturação desse pensamento editorial que era muito artesanal na vendo luzes, e que com o tempo foi ficando mais industrial e focado no conteúdo, talvez a palavra seja “conceitual”. a vendo luzes durou até 2018, mas incorporando em seu nome “in-edições”, pois o caminho dos cadernos e fotozine fofo já tinha dado lugar ao xerox ou à impressão digital sob demanda, em processos propositalmente mais simplificados. quando mudei de porto alegre para são paulo, em 2018, meteoro edições tomou o lugar de vendo luzes in-edições, incorporando a parte do catálogo desta que ainda estava em circulação, mas também focando menos na autopublicação e sim em uma abertura editorial que me colocasse como editora de projetos de outros autores. na verdade, até hoje o grosso das publicações que fiz em uma ou em outra são autopublicações (mesmo que às vezes não assinadas ou sob pseudônimo), apenas dois são de outros artistas, mas tenho projetos com mais de uma pessoa que estão em andamento, um dia eles vêm à tona, no tempo certo de cada um. enfim, o importante para a meteoro é levar ao mundo publicações que conjuguem de alguma forma que faça sentido o conteúdo com o formato — de maneira que esse segundo corrobore para o fortalecimento do primeiro e também funcione como linguagem. outra característica da meteoro é a produção de publicações impressas de formas simples e baratas e de pequena tiragem, quase sempre sob demanda, vendidas também a preços baixos. ainda me interessa certo experimentalismo de materiais e modos de fazer uma coisa funcionar com poucos gastos, mesmo que às vezes isso aumente o trabalho manual — eu vivo assim, num eterno querer cortar à mão e me arrepender logo em seguida para depois voltar atrás e me arrepender novamente — uma espécie de instabilidade entre o amor ao manual versus amor ao industrial.

 

como você pensa na circulação das publicações?

circulação é a finalidade máxima, não é mesmo? é para isso que eu publico, para que isso chegue a outros lugares e pessoas e, com sorte, a outros tempos. as publicações são um tipo de manifestação — sejam elas de cunho artístico, informativo, teórico ou qualquer outro — que interessam mais que tudo por esse potencial de circular, fazer girar ideias, passando diretamente pelas mãos das pessoas, ruas, cidades, casas, enfim. pra mim, a circulação é o tesão. mas também acho que uma vez que elas param de circular, geralmente por estarem paradas na coleção de alguém, isso não necessariamente as estanca, pois não estão paradas para sempre, é questão de tempos para que voltem a estar nas mãos de alguém que as visite. claro que uma parcela das publicações pode ter o mesmo destino dos jornais para cachorros (e eu tenho um amigo jornalista que fica especialmente feliz em usar o jornal em que trabalha para que seu dog realize suas necessidades fisiológicas — é duplamente útil e proporciona novas leituras), ou mesmo o esquecimento e a lata do lixo, mas tampouco considero isso dramático, é o caso das publicações que perecem como qualquer outro objeto do mundo. enfim, boto todas minhas fichas na circulação das publis, mas também sou uma colecionista delas, e gosto desses dois momentos de suas vidas, acho que um complementa o outro. é claro que também sou adepta a modos facilitadores de circulação, como a digitalização das publicações e suas formas de apresentação, visualização, e, sem dúvida, criação online. nesse sentido, acho que a coisas ficam mais interessantes quanto mais coleções disponíveis haja para que todo mundo as possa acessar sem precisar "tê-las". e ah, livres para copiá-las, reutilizá-las e reimprimi-las, por supuesto.

 

por que publicar?

parece uma forma menos hermética e menos burocrática de fazer as ideias e os desejos artísticos girarem. para mim, liberou muita coisa. eu costumava ficar travada tentando realizar projetos maiores, séries fotográficas, buscando sempre boas justificativas para colocá-los no mundo e ainda convencer alguém de que tinha coerência e tal. ao publicar pela primeira, segunda, décima vez, sempre sinto a mesma liberação: não me preocupa a legitimação do trabalho, nem ser demasiado coerente, nem que ele seja perfeito, ele geralmente nasce de uma ideia relativamente simples e assim toma forma. custa menos em todos os sentidos, e ainda chega às pessoas de uma forma que costuma me interessar mais do que se eu mostrasse o trabalho em uma parede de um espaço de arte, por exemplo, me sinto mais honesta. acho que há mil outros motivos para publicar, esse são os meus mais óbvios. a circulação, como coloquei na pergunta anterior, é o destino, mas o que vem antes, e é de grande força, é a sensação de poder fazer o que eu quiser e sem grandes pretensões, algo como uma liberdade.

 

indique três publicações que te fazem querer continuar publicando.

mais do que publicações, prefiro citar editoras, pois considero que cada uma delas têm um corpo de trabalhos admirável, e é até injusto escolher uma publicação entre tantas ótimas. e aqui vai até parecer rasgação de seda, mas eu pago muito pau para o catálogo integral da plataforma par(ent)esis e também para a forma como ela faz circular esse material por aí, muitas vezes com download disponível, traduzindo projetos de outras línguas, variando entre publicações conceituais e teóricas, de design exemplar... a miríade (atual editora editora) me emociona pela qualidade do raciocínio editorial e pela apresentação limpa, simples e formalmente coerente das publicações (já falei, né, gabi, meu sonho é ter uma mesa branca que nem a tua). por fim, adoro o trabalho da publication studio são paulo (anterior aurora), politizado e de rigor crítico, de impressão simples e acessível, que abre espaço para publicadores novos, a exemplo do que fizeram na tijuana de 2019. esses são 3 exemplos de editoras que adoro, e existem outres publicadores que giram mais na autopublicação, que também piro, como a marina dubia, o antonio da mata, a galera da guaipeca edições... e tem gente grande do assunto, como o gustavo piqueira, que tem publicações que considero impecáveis em muitos sentidos.

 

se quiser, conta pra gente: como você e a flamboiã se conheceram?

em 2016 (acho), aproveitei que alguns amigos meus, como o diego dourado e o pessoal da azulejo, estavam indo pra floripa expor na flamboiã para dar uma chegada ali e conhecer a feira. era uma edição que rolou no museu, e o astral era ótimo, tinha muita coisa boa sendo exposta, gostei demais. o dourado insistia para o fato de que eu precisava conhecer a gabi bresola, e no ano seguinte eu dei um jeito nisso, a gabi acabou vindo expor em poa na “e l i p s e s” e na folhagem. na seguinte flamboiã eu também apareci como expositora, para minha alegria. esse são momentos muito especiais nas minhas memórias como publicadora, guardo total no coração.

 

conheça a meteoro edições:
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