lúcia rosa [dulcinéia catadora]

 

qual foi o primeiro contato com publicações de artista?

em 2007, quando dulcinéia catadora iniciou suas atividades e, convidadas por eduardo brandão, da galeria vermelho, começamos a deixar lá cada novo título que fazíamos. na época havia na galeria uma pequena área reservada a publicações de artista e foi lá que conheci livros de marilá dardot, dora longo bahia, fabio morais e outros.

quando e como começou a publicar?

começamos a publicar em 2007, após um trabalho colaborativo com eloísa cartonera (ar), na 27 bienal de são paulo. em dezembro, antes do término da bienal, tinha claro para mim o desejo de formar um coletivo e produzir livros em parceria com escritores. com peterson emboava, andreia emboava e outros jovens, filhos de catadores, começamos a fazer os primeiros livros, divulgados e vendidos não só na galeria vermelho, mas também na mercearia são pedro, bar que reúne escritores, no espaço plínio marcos, na feira da praça benedito calixto. com o tempo, começamos a participar de feiras de publicações independentes e esses eventos acabaram se tornando fundamentais para a continuidade de nosso coletivo.

fale sobre o dulcinéia catadora.

o coletivo dulcinéia catadora funciona em são paulo/sp, dentro de uma cooperativa de reciclagem. publica poesia e contos na forma de pequenos livros com capas de papelão. essas publicações, que têm as capas pintadas e são costuradas à mão,  são o eixo central de seu processo criativo, sendo a sustentabilidade e o empoderamento aspectos fundamentais de seu trabalho. dulcinéia catadora segue uma trilha paralela ao mercado editorial, que lhe permite promover autores jovens e não publicados, abrindo, dessa forma, novas narrativas e oportunidades dentro da literatura latino-americana contemporânea. em 2010 o grupo começou a convidar artistas a desenvolver projetos colaborativos, o que possibilita a participação das integrantes do grupo na produção de conteúdo.

vez ou outra me perguntam quais são nossos sonhos, se queremos crescer no futuro. e se espantam com a resposta. a pergunta espelha o pensamento neoliberal ligado à produção, ao progresso, à expansão — possíveis desdobramentos de negócios, tão buscados por aqueles que  norteiam suas vidas pelo viés do capital. vivemos o hoje. não temos sonhos, expectativas para o futuro. não pensamos em crescer, mas na resistência dia a dia. ao grupo tão pequeno queremos garantir um trabalho verdadeiro, desvinculado de interesses comerciais, que vai mais fundo e busca  valorizar as trocas, os encontros.

há aqueles que, associando uma imagem de "sucesso" ao coletivo, espantam-se ao nos visitarem, diante da constatação de um espaço mínimo, precário, quase sem condição de trabalho. como poderia ser diferente, se trabalhamos numa sala dentro de uma cooperativa de recicláveis, sob um viaduto? e, ao mesmo tempo, qual o sentido de ocupar um espaço diferente? 

claro, falamos da mulher negra, catadora, que luta para sobreviver numa sociedade que ainda desmerece o feminino, ainda mantém forte o racismo.

são mulheres que lidam diariamente com algo desprezível, dado como inútil. como buscar o sensível nessas mulheres acostumadas a negar o tato, os olhos sempre fechados para seu íntimo?

fazer livros com capas de papelão significa abrir espaço lentamente, encontrar nichos permeáveis ao enfrentamento dessas questões.

como você pensa na circulação das publicações?

a circulação é um aspecto fundamental na produção de nossos livros. fazer circular nossos livros significa estabelecer uma ponte entre a obras de muitos escritores e artistas e um público muito mais amplo, driblando circuitos fechados, da literatura e das artes, calcados em esquemas vinculados ao lucro, fruto do capitalismo neoliberal. nossos livros nascem do uso de papelão coletado de espaços públicos, recolhido da cidade. são uma denúncia do descarte industrial. por isso é tão importante para nós que o público tenha acesso a eles nos lugares mais diversos. o papel dos livros cartoneros é se espalhar pela cidade e o preço baixo contribui para a acessibilidade.

por que publicar?

tenho paixão por livros. acho que isto impulsionou o início de dulcinéia. tenho formação em letras, trabalhei com livros a vida toda, na produção em editoras, com revisão e tradução. paralelamente, ao longo da vida também me dediquei às artes visuais e realizei vários projetos junto a grupos vulneráveis, oferecendo oficinas de pintura.  quando vi a possibilidade de fazer livros com capas de papelão, tive certeza de que queria seguir esse caminho. dulcinéia catadora junta meu gosto pela leitura, minha experiência anterior em trabalhos com grupos de excluídos e dá ao grupo de catadores que integram o grupo o acesso à literatura e às artes, além de proporcionar uma complementação de renda com a venda dos livros. expor catadores ao universo da literatura e das artes significa abrir um canal para o crescimento pessoal e para a auto-estima. publicar, para mim, significa propiciar maneiras de dar visibilidade a esse segmento marginalizado e tornar possível a eles transitar por espaços aos quais não teriam acesso. significa questionar preconceitos, discriminação, desigualdade. significa resistência.
passamos de 150 títulos. dentre eles, alguns processos colaborativos foram muito ricos, como o que resultou no livro “dulcinéia”, feito com thiago honório. é um livro feito com papelão, costurado com barbante, e cada letra foi feita com o uso do perfurador, que usamos na encadernação de nossos livros. de conversas com o artista resultou a ideia do livro: perfurar o nome dulcinéia, uma letra em cada página. como escreveu o próprio artista, no release, “...a ideia de nome como furo, de leitura como furo, de livro como furo, de arte como furo, de nome que é título e de título que é nome, a um só tempo perfurados, de leitura, livro e arte como atravessamento foram problematizados no processo de construção do livro-obra dulcinéia”.

indique três publicações que te fazem querer continuar publicando.

“um livro para desvendar mistérios”, de paulo bruscky, foi marcante para o grupo. o artista não tinha condição de realizar um trabalho presencial com dulcinéia. mandou várias publicações suas, que foram exploradas pelas catadoras e vimos um vídeo dele que mostrava seu interesse pela reutilização de materiais simples, do cotidiano. a certa altura do vídeo paulo bruscky pega uma folha de outdoor de uma caçamba e mostrando-a diz: isto para mim é uma maravilha! eu assinaria! essa fala ecoou na cabeça de maria. segundo ela: “ver lixo e fazer daquilo uma arte, é muito legal!”. terminado o vídeo, mostrei para o grupo as fotos que comporiam o livro de paulo bruscky. foram tiradas em um parque de recife, enquanto ele esperava chegarem as estruturas para montar uma escultura sua naquele local. eram, em sua maioria, pequenos papéis perdidos na grama. maria saiu para o pátio da cooperativa, dizendo: nossa, quanta coisa podemos fotografar aqui na cooperativa! dei a ela minha máquina e disse: vai fotografar! ela voltou com umas vinte fotos. disse a ela: volte e tire mais! maria tirou cinquenta fotos que receberam intervenção de maíra dietrich e compuseram o livro “por-sobre”. foi o primeiro de uma série de livros criados pelas catadoras. 

outra publicação que marcou muito nosso trabalho foi “23 poemas”, de arruda. foi um dos livros que mais cumpriu o papel de aproximar as catadoras da literatura. o vínculo que o autor formou com elas foi muito forte e isso foi determinante para que se interessassem em fazer a leitura de seu livro. algumas catadoras chegaram a decorar poemas de arruda, que foram apresentados em uma unidade do sesc.

se quiser, conta pra gente: como você e a flamboiã se conheceram?

conhecemos a flamboiã através de contato pessoal com seus organizadores, em uma das feiras tijuana. a participação de maria, uma das integrantes de dulcinéia, em uma das edições da flamboiã, foi muito positiva. maria tomou o voo para florianópolis, montou a mesa para a feira, falou sobre os livros com o público, conheceu artistas com propostas de livros diferentes e deu oficina de produção de livros cartoneros. foi um exercício de autonomia e só foi possível pelo olhar sensível dos organizadores, que deram todo o apoio e mostraram ter um entendimento claro de nosso trabalho.

 

conheça o dulcinéia catadora:

dulcineiacatadora.com.br