qual foi o primeiro contato com publicações de artista?

minha mãe colecionava todo tipo de publicação independente, desde cordel a publicações políticas e de contracultura, especialmente dos anos 70/80. então, desde criança, esse material circulava pela casa. eu devia olhar com algum interesse, mas sem entender muito o que era, como era feito, etc. anos depois, na adolescência, descobri zines de música e quadrinhos e isso rapidamente virou meu interesse central. não só com publicações, mas comprava tudo que tinha de discos, camisetas e arte independente. eram poucos lugares que se podia encontrar esse tipo de coisa, em geral os shows punk tinham mesinhas, além disso, devia ter  duas ou três lojas no centro de sp que vendiam material independente. em 2005 eu herdei uma caixa com a coleção de publicações da minha mãe. era tudo muito plural, além de livros de poemas da nuvem cigana, tinha muitas publicações da livros 7 de recife, livros de prosa de outros países, entre outros. e foi aí que realmente comecei a ver esse material com um olhar crítico e querer entender os processos de produção, o ímpeto por trás da criação, querer ir atrás dos artistas, esse tipo de coisa. finalmente, em 2009, acho, a galeria vermelho organizou a primeira feira tijuana e foi lá que eu realmente chafurdei nas publicações independentes chiques e livros de artista, foi a primeira vez que eu vi essas publicações (que ocasionalmente via na internet) ao vivo, sentindo o peso na mão e o atrito do papel nos dedos.

quando e como começou a publicar?

em 2011 comecei minha primeira editora, a motim, junto com a meli-melo press. o beto tinha acabado de comprar uma risograph depois de uma conversa que tivemos no ano anterior, na qual especulamos como seria fantástico ter controle dos meios de produção. ser verdadeiramente independentes. a meli-melo abriu e aprendemos juntos a produzir livros, da concepção ao produto final. nesse mesmo ano participamos da feira tijuana, meio pelas margens. desde então as produções foram ficando cada vez mais ambiciosas. ao mesmo passo que a tijuana cresceu, a feira plana começou e outras feiras começaram a surgir. isso nos dava ímpeto, prazos para produzir material, além de um lugar pra encontrar com o público e vender nossa produção.

fale sobre a livros fantasma.

livros fantasma é uma plataforma editorial criada em 2016 com base de operações em são paulo. inicialmente um projeto de distribuição gratuita de livros de artista, vencedor do edital proac de espaços independentes. nossa missão é construir diálogos entre as artes visuais, cinema, poesia, narrativas pictóricas, design especulativo, não-ficção e experimentos sonoros através de publicações, objetos, exposições e mostras. fantasma é o que resiste ao cataclisma e perdura, presença sem forma, ruína em movimento.

 

como você pensa na circulação das publicações?

esse é definitivamente o problema mais presente na produção de publicações independentes. a princípio, como disse antes, o foco principal eram as feiras que, com o tempo, foram perdendo cada vez mais a energia e desaparecendo ou mudando muito o foco da curadoria e material apresentado. isso aconteceu por muitos motivos, mas acho que os principais seriam a saturação do mercado e crises econômicas e políticas. é difícil propor um modelo funcional hoje em dia. sinto que existem muitas possibilidades, mas nenhuma delas é explicitamente sólida. existem alguns espaços físicos que vendem material independente, mas é relativamente escasso e esse tipo de venda não sustenta a própria produção. a internet é, obviamente, a melhor aposta. mas ter loja online também significa investir tempo e trabalho na criação de material gráfico e divulgação constante do material publicado, além de criar um sistema de logística para envio de pedidos. com editoras pequenas, no nosso caso somos basicamente duas pessoas, é frequentemente difícil conciliar trabalho comercial e cotidiano com as práticas necessárias pra fazer isso ser viável. mesmo assim não há certeza. sinto que cada vez mais importante é a criação e contínua manutenção de público, seja através de postagens constantes em mídias sociais ou da produção de conteúdo específico para a internet. é algo que queremos começar a fazer, com entrevistas, podcasts e discussões sobre o próprio mercado, práticas artísticas independentes e resenhas de livros. acho importante a noção de comunidade e participação que surge desse tipo de diálogo entre editora e público. de alguma maneira é quase um retorno o contato que se tinha entre público e bandas pequenas, uma relação mais de parceria, sem hierarquia. e talvez daí, com um público base sólido e fiel, o investimento na produção e divulgação do material parece mais eficaz e direcionado.

por que publicar?

apesar dos pesares, o ímpeto ainda existe dentro da gente, a fascinação pelo objeto físico, o livro como artefato. no fim são pequenos grãos que deixamos na história do mundo pra quem sabe, num futuro longínquo, arqueólogos os encontrem e com isso possam recriar ou mesmo especular sobre as intenções e significados daqueles objetos e o mundo de hoje.

 

indique três publicações que te fazem querer continuar publicando.

"jose marti, la berenjena sublime y el sordido pendejo" de bruno mazzoldi, publicado em 2016 por la parte maldita; 

"apocalyptic witchcraft" de peter grey, publicado em 2013 por scarlet imprint;

"mould map" ou qualquer outra publicação da landfill editions;

"i seem to live. the new york diaries, 1950–2011" de jonas mekas, ou qualquer outra publicação da spector books.

botei quatro, espero que não seja um problema. :)

se quiser, conta pra gente: como você e a flamboiã se conheceram?

pelo que lembro foi através de um amigo de santa catarina, o pedro franz, artista visual e de quadrinhos. daí fui convidado a expor na flamboiã em 2017, foi uma experiência massa, conheci um bocado de artistas incríveis.

 

conheça a livros fantasma:

livros-fantasma.com

instagram.com/livrosfantasma